sexta-feira, 20 de novembro de 2015

No mundo seco


A mando do mundo,
meu murmurio é mudo.
Amando o mundo
 meu murmúrio muda.

Para que regar o mundo
Pra que?
Se tudo que é mundo seca,
Se tudo que é mundo muda...
Ai amor, manda no mundo!
Porque eu quero regar,
regar o mundo, amor.
Pro cê.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Lição de Casa

Quando eu era criança pequena lá em Botucatu, eu tinha uma enorme dificuldade em compreender muitas coisas como:"Por que eu tenho que fazer lição de casa? Eu já passo metade do meu dia sentada lá na escola!". Essa lembrança me veio hoje, enquanto eu tenho três trabalhos da faculdade para fazer e uma vontade imensa de escrever outra coisa, qualquer coisa que deixe meus dedos escorregar no teclado.
     Minha indignação era tanta perante alguns deveres de matemática insolúveis que um dia eu tive um ataque de nervos e rasguei a folha da lição. Ninguém me esfolou por causa disso, minha mãe só me disse que eu teria que contar para professora, no dia seguinte, o que tinha acontecido com a minha lição. E eu não me lembro o que eu disse nem as consequências daquele gesto de fúria infantil. Lembro só da imagem e da vergonha que eu senti antes de começar a falar, parecia muito idiota eu ter rasgado tudo.
   Naquela época eu olhava para a estante de livros e achava que o mundo poderia estar ali, não no meu livro de matemática.  Então eu pegava um deles olhava, lia algumas partes e não entendia muita coisa, mas eu me sentia livre só pelo fato de eu poder escolher qualquer um aleatoriamente.
   Alguns anos depois, quando o caderno não era uma obrigação,  tive um professor de geometria muito severo, com o qual eu adquiri um monte de notas baixas. No final do ano veio de novo a questão das tarefas, ele disse: "Eu te dou um ponto pelo seu caderno de tarefas, traga-o amanhã". Subitamente veio o desespero, eu não tinha se quer um caderno! Cheguei para uma garota estudiosa e disse: "Me empresta o seu caderno?".
  Emoção. Saí correndo da escola, comprei um caderno e umas canetas coloridas, porque a garota escrevia de cores diferentes, então achei de bom tom copiar. Sentei na sala jantar abri espaço na mesa, olhei para o relógio e pensei "vou ficar o dia todo aqui". Na primeira página, do caderno da menina tinha escrito com canetinha: " GEOMETRIA". Me recusei a copiar, pulei duas páginas e comecei, copiei, disfarcei, fiz um desenho diferente. No final de duas horas tinha incrivelmente terminado o trabalho de um ano inteiro. E então olhei para estante de livros, e comecei a pensar que enquanto a menina fazia todos aqueles exercícios eu estava folhando aqueles livros, vendo TV ou simplesmente olhando a rua. E numa revolta dessa vez adolescente, resolvi me mostrar.
  Peguei o livro da Florbela Espanca e escrevi um poema dela, no lugar da capa. Nessa época eu arriscava uns versos também, e a cada lacuna intercalei, eu , Fernando Pessoa, até o senhor Bertold Brecht entrou na dança. E eu demorei bastante tempo selecionando aquilo tudo, talvez mais tempo do que eu tenha levado para copiar.
   Bem cheguei a escola e a vergonha me tomou de novo, pensei como sou idiota, ele vai me torturar. Então ele pegou o caderno, novo e sorriu um poco e me perguntou " Esse caderno é seu?" ao que eu disse sim e justifiquei que fazia anotações e passava a limpo em casa, mas eu nunca soube mentir e isso foi tão gaguejado que ele me cortou e disse "Veremos". Ele o abriu e se deparou com Florbela, leu o poema todo, com calma. Eu tinha esquecido de colocar o nome dela, ele virou com desdém e perguntou "Não foi você que escreveu isso, foi?" ao que eu respondi revoltada pelo desdem não, foi Florbela Espanca o meu é o da última página. Ele riu. Continuou folhando o caderno, parecia que em câmera lenta diante do meu desespero.
  Eu pensava "eu sou mesmo muito idiota era só ter copiado a porcaria das contas". Ele se deteve no meu poema, que eu sinceramente queria lembrar. Então veio o veredito, "Vou te dar o ponto pelo poema, é um bom poema e no mais eu gosto da Florbela Espanca". Eu nem sei qual foi o meu olhar, mas ele me disse no fim " Eu sempre soube que você nunca ia fazer contas". Confesso que doeu, porque eu sou orgulhosa, mas enquanto eu fui andando pela rua, me dei conta que ele foi a primeira pessoa desconhecida a quem eu tinha mostrado um poema. E pensei rindo, se nada der certo vou vender poemas à professores de matemática. Está aí uma tarefa, que eu posso fazer.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sobre os sexos

Ele: Fala para mim qualquer coisa que não rime, por favor, estamos no século XXI. Diga uma coisa amorosa que não seja piegas, tente ser gentil sem usar frases feitas. Vamos, colabore. Não há nada de desumano
Ela: Viva a realidade.(tira a roupa)
Ele:  Obrigado.

(tempo)

Ela: Vontade louca de abrir a janela e ficar assim para sempre. Numa preguiça eterna. Sabe, de viver assim feito brisa.
Ele: Puts, tenho que trabalhar amanhã, vamos dormir? (veste a calça)
Ela: Obrigada.

(se viram na cama e dormem)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Curriculum Vitae

                                  


Demoro meses para falar com alguém ou um segundo. Hedonista Conservadora,  foi a última definição insana e contraditória que me dei. Por quê? Ah sei lá, porque eu sou impulsiva e um segundo depois tudo que eu fiz me aterroriza. Mas não se engane: eu faria de novo. Acho tudo caro e reclamo, sim, eu reclamo. Tomo café de noite. Tenho pavor de aviões, mas sou obrigada a entrar neles. Na verdade, os meios de transporte me assustam. Como uma coisa de lata pode correr tanto? Eu bebo sozinha em bares, eu gosto disso.  Odeio baladas, a não ser que eu esteja muito bêbada e feliz ao mesmo tempo, nesse caso, você pode me encontrar virando piruetas em lugares improváveis e roubando microfones. Ah, eu também fico muito tarada nessas ocasiões. Mas tudo bem, porque não é com frequência que isso acontece ( essa é desculpa que me dou quando acordo). Eu tenho poucos amigos, mas são amigos de muito tempo. Eu amo crianças. Eu gosto muito de escrever, mas odeio corrigir. Tenho pavor das normas da ABNT. E já fiz coisas: como me corresponder por cartas, ler para cegos, andar pela paulista vestida de Marilyn Monroe e fingir que eu estava fazendo um strip-tease na feira da Pompéia, porque me contrataram para ler poemas e ninguém parava para ouvir, funcionou. Os mendigos e malucos me param na rua e eu falo com eles. Já não saí com um cara porque eu estava conversando com uma prostituta e ele a tratou mal, paguei a conta toda pedi mais dois chopps e mandei-o (jamais escreveria “mandei-o” foi o Word) embora. Escrevo poemas e mando para os outros. E acho isso ruim, mas faço. E os poemas não são autobiográficos, no limite são uma “desautobiografia”.  Acho mais fácil escrever ou dançar do que falar, apesar de falar muito. Falo muito justamente porque não falo com muita gente. Então quando encontro alguém com quem me sinto a vontade, falo muito. Muitas vezes não olho para as pessoas nos olhos quando elas estão falando, porque gosto de imaginar o que elas estão falando. Os olhos das pessoas me sugam. Fico hipnotizada. É como se não fizesse sentido falar. E as pessoas não gostam muito disso. Então, para prestar atenção no que elas estão falando olho para o lado. Eu não conheço você, você não me conhece e é claro que eu usaria um método estranho para fazer isso porque eu faço assim, mesmo não querendo. Mas eu já fiz coisas piores e não tive redenção, já acreditei que as pessoas mais babacas poderiam ser legais. E eu sempre sobrevivi. Porque me interessa conhecer os outros, de verdade. Assim, por nada. Porque eu tenho medo da morte e do escuro. Porque a vida vive escorrendo das nossas mãos, e minha maneira de pegá-la é essa. Sou só uma pescadora de palavras, tão insegura quanto segura. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Je suis


Mais um anjo mestiço,
metade céu
metade hospício.
Uma asa ao léu,
Outra ao precipício.
Meu ofício.

Sheyla Coelho

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Transporte público


Num ônibus lotado,
A solidariedade do acento,
Encaminha-se manca,
Por um salto quebrado.

Sheyla Coelho

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Alergia

- Que aconteceu com você?
- Comi um amor estragado.
- Fora do prazo de validade?
- Não, totalmente fora da realidade.

Sheyla Coelho

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Desgoverno

Minha alma tem mil e um Estados,
Independentes e mal governados
Por um corpo culturalmente mascarado
E um bubblegum mascado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A comédia humana.

Uma vez alguém me disse que carregava sua família em um bolsa vermelha. Pensei bem. A princípio, me encantei com a metáfora depois me encantei com esse alguém. Por um instante quis ter uma bolsa dessa. Assim, quando eu me sentisse triste com o mundo ou até quem sabe comigo mesmo, eu abriria minha bolsa e vendo minha família talvez eu pudesse compreender a minha angustia . Cada um, a sua maneira, poderia me aconselhar. Mas eu descobri que essa bolsa faz a gente ir mais longe. A primeira pergunta é: Com quem eu me pareço mais?

Depois vêm o medo de se parecer com quem a gente não gosta e em determinado momento ficamos com a resposta mais simples: “- Sou um pouco de todos”.

Mas a dor da vida, a poesia das folhas que caem em nossas cabeças, os olhares que nós trocamos com cada pessoa que nos importa, tudo isso que parece tão particular, tão próprio... tudo viraria uma massa só. As folhas e os olhares estão aí para quem está disposto a trocar, mas o significado que essas coisas ganham depende de tudo o que o universo improvisa em um determinado instante.

Se fossemos simples combinação de arquétipos em um determinado momento encontraríamos alguém exatamente com nós. E todo encanto se perderia. O fato de eu enxergar uma folha como um milagre reestrutura todos os meus arquétipos e faz deles diferentes dos teus, mesmo que na minúcia. Eis a comédia humana: a gente ri porque essa pequena diferença permite, a gente ama porque a diferença do outro nos completa, a gente briga porque nos incomoda.

E o universo improvisa, promovendo alguns encontros e adiando outros. E em cada atrito, paixão e amor que acontecem verdadeiramente ficamos pasmos diante de nossas diferenças. E assim,mais uma vez, como em um choque de moléculas nossas famílias se reorganizam e somos novos apesar de iguais. Para mudar, basta deixar o zíper da razão despretensiosamente aberto. E tudo acontece quando a gente menos espera, respostas que não sabemos, podem se resolver num simples abraço com alguém. Na troca de duas ou três palavras a confusão pode se tornar reorganizada. Então a família dorme em paz na bolsa, até o próximo encontro.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Auto de denúncia

Gente desesperada é uma merda. Faz tudo errado achando que tá melhorando tudo. Depois vê que não precisava de metade do espanto que causou e fica essa sensação de impotência. Como eu queria que os sentimentos não se somassem e virassem essa bola de neve que faz da gente um furacão de insensatez. É tô desabafando mesmo, não ouvi nenhuma banda legal, não estou sorrindo e nem fui para algum lugar legal. Não sou legal. Sou sei lá alguma coisa em que não dá para colocar adjetivos. Sou ontem, anteontem, quem sabe eu sou sou amanhã. Sou essa repetição humana de problemas similares.Não sou nada do que esteja fora, não sou vento nem poesia. Não sou coisas bonitas nem feias, droga não dá para não ser pedante mesmo, né? Ok sendo assim paro por aqui para me preservar de sei lá o que.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ser domingo

Ver a vida passar,
entender cada sentimento,
saber o que não fazer,
se despedir,
e ler as memórias de Nava.

Essa não sou eu.
Essa é uma outra,
Alguém que anda chegando...
aos poucos, pequena.
Calma?

Uma que não espera tanto,
Uma que chega, chega
e está sempre chegando.
Quando há fogo, despeito,
pressa!Ela apaga, some
e só depois volta.

ela sou eu no domingo,
ela é o meu domingo.




sexta-feira, 22 de abril de 2011

Quem dera

Quem dera
que esses revolucionários
revolucionassem.

Ai, se fossem novos
e não cópias falidas.

Quem? Quem?
Quem dirá, quem dera?

Somos todos semi-novos,
todos gastos.

Quem dera
que "os" pensadores
não pensassem,
tanto.

sábado, 9 de abril de 2011

Buraco

É de desespero o momento em que acordo à noite e nada me faz sentido. Frágil, fico perante a fumaça densa da loucura, o pensamento é rápido, se protege. O eu se precipita para fora da cama, fuça em todos os cantinhos para encontrar uma folha em branco. E em letras amadoras faz o que o primeiro poeta fez, faz e dúvida pela mesma razão que o primeiro poeta duvidou. O eu, o lírico, comunga com todos a desgraça universal do homem: de ser o único a saber e mesmo assim nada saber. Pensar à sério sobre isso é profundamente desesperador, por isso entendo a amargura primeira dos poetas. Porque nessa vida, é um pouco tarde o momento em que aprendemos a desfrutar.
Nada.
Sinto uma costura na incompreensão, meu coração assim como o do primeiro aedo fechou o buraco que com seu medo causou no mundo e usando uma liga forte de palavras, fé e comunicação, restabeleceu o comum acreditar descontraído. E nesse momento poesia e poeta dormem enquanto o meu eu, o não lirico, segue sua rotina.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

No vento


No vento,
bato minhas asas
de pássaro
fraco.
No vento,
que me tira
o calor,
adormeço.
Assim,
todas as fúrias
são levadas,
ao vento.
Nesse alento,
me esqueço.
Sou feliz,
pois o vento forte
arranca lágrimas.
Águas do meu mar
a transbordar de mim.
Não faço sentido.
Me faço sentido,
no vento.
No vento
sofro erosão,
envelheço.
No vento.
Sheyla

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Falsa Alegria

A luz do fim do túnel ainda não era a saída.
Era uma vela que sem mais porque se acendeu
E não sei quem apagou.
O sorriso foi despedaçado,
A certeza caducou
E voltei assim perdido
Para a insegurança de quem sou.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Imperfeito

Se você pudesse me beijar
Seria mais que literatura,
Seria mais que, mais que perfeito.
Se você pudesse me abraçar
Seria mais que, mais que...
Loucura!
Seria letra música,
Seria alegria instantânea.
Pena você, pena ela ...
pena nós, pena de mim.
Sou sempre samba-canção
nada de bossa, nada de beijo
sempre, sempre, sempre imperfeito.
Lá vou eu, caminhando,
sorrindo de doente,
de esperança tola persistente.
Se você não fosse, se ela
se nós, pena de mim.
Seria...
Loucura!
Se você vier,
se ela não vir, tortura para mim
Seria errado, mais tão humano.
Seria bossa nova, seria mais que, mais que
Faça verão!
Faça verão!
Se você, se ela
Não, não..
Sim, sim!!
Nunca vi tanta agonia, tanta alegria.
Seria de se não fosse a.
tudo no imperfeito!
Só falta agora
é que seja breve
que passe!
Passe imperfeito.
Venha presente!



Colchão

Sonhar, sonhar

sonho balão,

de ar e de voar.

Sonhar, sonhar

sonho fujão,

dá de sumir ao acordar.

Sonhar, sonhar

sonho de não,

de tremer e de chorar.

Sonhar, sonhar

Sonho pião,

de virar e enrolar.

Sonhar, sonhar...

sonho de acordar,

sonho de virar,

sonho de dormir!

Balão , fujão, colchão,

pião, ETA sonho bão!


Sheyla Coelho

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Grande Teimosia

"O homem vive a facilitar as coisas mais teima em complicar-se!
Caríssimo homem, se liga daí , que eu me torço daqui.
Para que internet, cabos, nano-tecnologia se me vens rezar por depressão e xenofobia!"
Foi meio assim que entendi, agora, se era Deus a ajudar ou o Diabo a confundir, sem resposta hei de ficar!

Sheyla Coelho

sábado, 28 de agosto de 2010

Meninos armados

A pena destreinada do poeta paulistano
não consegue mais escrever sem plano.
O poeta olha à rua e não concretiza.

A pena do poeta paulistano sufoca o verso.
Ao ritmo dos garotos sujos do centro com suas facas à mostra,
O poeta olha à rua e se "depena".

Sofre o coração boêmio do poeta,
Falta-lhe a esperança no verbo.
O poeta fecha os olhos à rua.

Pena de pena a pena
Largada a mercê na vasta mesa.
Não há palavra escrita à revolução necessária.
O poeta retorna a olhar à rua sem saber o que lhe valha a pena.


Sheyla Coelho

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Aonde você foi?

O que aconteceu? Pode ser qualquer coisa... Mas eu não me lembro. Quando foi que eu me esqueci? Onde foi que eu deixei você ? Na gaveta da cozinha? Não, eu não faria isso, lá é gelado. Como você é era mesmo? Engraçado, isso! Lembro-me de uma piada, quer dizer, lembro que eu sorri... não sei se era piada. Talvez no meu bolso, é acho que sim ...Eu gostaria de ter você no bolso, assim, toda vez que eu fosse procurar algo ou sentisse frio eu acharia você e ficaria feliz..Poxa é isso! Coloquei o casaco para lavar e você deve ter desbotado. Então, dias depois não te reconheci porque você não tinha cor e eu estava tão triste de ter te perdido que talvez eu mesma tenha te jogado fora. Me desculpa se não fui cuidadosa, ao te colocar no bolso fui pretensiosa. Eu não queria te sufocar no meu bolso nem te dar um banho de água fria ao não superar sua expectativa. É tão bom ter alguém por perto. Eu só queria você o bastante para não saber ouvir se você também me queria.