quinta-feira, 5 de março de 2009

Boba

Eu sou uma boba muito boba,
que a cada minuto se arrepende da explosão anterior,
perdida em pensamentos que ora se acalmam
quase adormecem
ora gritam,
sem intervalo.

Passa tempo incontrolável, incoercível
e a cada milagre do segundo
chegam tão próximos e confusos
ora a dor ora o alívio.

Nunca sei o hora certa do amor
O possuo em baldes caudalosos
E assim o que é para se compartilhar em todas as horas
ora se esvazia em um impulso gordo, atrapalhado
ora se afoga em um micrésimo de vaidade.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O presente de Iolanda

Chegava cedo, saía de casa antes do sol se atrever a enfrentar as densas nuvens cinza da metrópole. Ia aos arredores da praça da república onde tinha seu lugar reservado nas leis que os próprios ambulantes estabeleceram, de um lado ficava o Josival dos óculos escuros e do outro dona Rosa dos brincos, pulseiras, crochês...
Seu Manuel dos relógios, como era conhecido, passava seu dia. Correu do rapa, armou e desarmou pelo menos quatro vezes sua engenhoca prática, uma mala de madeira muito lixada e pintada de verde e um cavaletinho para apoiar, que fabricou no quintal de sua casa lá em São Matheus. Tudo se desmonta em menos de meio minuto.
 Não é um senhor de muito papo, a não ser com os fregueses e no sagrado jogo de dominó de domingo, lá do Bar do Isaías.
- Oh, dona Rosa vêm aqui um pouquinho, faz favor.- disse com uma cara angustiada.
- Fala Maneco aconteceu alguma coisa - disse ela de espanto, tão raro ele a chamar.
- Sabe que é, hoje é aniversário da Iolanda e eu não sei...queria dar um presente pra minha velha, mas não sei o que.
- Ah,... Pense numa coisa que ela gosta, tenho uns brincos lindos que eu fiz noite passada.
- Ihh! Não vai adiantar não a Iolanda nem furo na orelha têm.
A dona Rosa fez uma cara estranheza ( como assim uma mulher que nem tem furo na orelha), mas era assim sua Iolanda, era moça nascida em fazenda não tinha essas frescuras. 
O dia já se ia e nada de idéia nenhuma, sem contar as vendas, só cinco relógios. Tinha umas contas para pagar e a vontade de presentear a esposa ficava cada vez mais obtusa. 
Já triste por não ter comprado nada, ajeitou o cavalete, foi ao ponto , acenou para o ônibus que o levaria para casa e tendo andado uns seis quarteirões a bordo, da janela, avistou uma floricultura.
- Margaridas, a Iolanda adora as margaridas!
Desceu do ônibus, logo passaria outro e daria tempo de pegar a integração.
- O que o Senhor deseja?
- Margaridas, daquelas grandonas - disse ele entrando afoito de mala e cavalete em punho.
- Infelizmente não as tenho.- disse a senhora naquele tom falsamente triste- mas temos outras flores, qual é a ocasião?
- Ocasião?
- É. Para quem são?- respondeu-lhe num tom quase didático.
- A ocasião é que minha mulher tá de aniversário.
- Ah, sim, vejamos....
- Como se chamam aquelas ali ó -apontou com o dedo- roxas e rosa dependuradinhas?
- São conhecidas como brincos de princesa.
- É caro?
- Aquele vaso é trinta reais.
Seu Manuel achou bonito, talvez pelo nome, quando namoravam chamava dona Iolanda de princesinha, porque ela era meiga, pequeninha, magricelinha.
 É. Porém os 40 reais da conta de luz o fizeram pensar, tinha só 50 do trabalho de hoje e quando já ia se esquivando para sair, surgiu-lhe uma idéia. Teve vergonha, mas coração deu um impulso e a proposta pulou meio sem jeito:
- Se eu der dois relógios e 10 reais , a senhora deixa eu ficar com os brincos de princesa?
-Ah, infelizmente...
Ele respirou fundo, criando forças para não desviar o olhar da senhora de óculos grossos e roupa de frio rosa.
-Você tem relógios para criança?- disse ela, mudando de tom ,enternecida pelo olhar úmido de Manuel.  
Mas veloz que nunca, Manuel montou a mala e o cavalete dentro da floricultura. Tirou as pulseiras da Hello Kitty, Homem Aranha, Barbie...
- E são muito bons, viu senhora !
Ela acabou ficando com um do Batman, para o netinho e um da Barbie para a sobrinha neta.

Como o concordado, Manuel entregou-lhe os 10 reais e os relógios. Desajeitou-se para pegar a flor como se pegasse um recém nascido, ajeitou a mala e o cavale em um dos braços e foi para casa entregar os brincos da princesa Iolanda.

Sheyla Coelho

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Caipirinha

Acordou com o relógio na hora marcada, tinha festa na escola, naquele dia de São João. Entrou no banho cheia vontade, sentou-se ainda de toalha e entregou o cabelo molhado para que a mãe transformasse-o em trança.
Ensaiou a semana toda com a professora, não era a noiva, mas dançaria com o Gustavinho pela primeira vez em três anos de escola e festas juninas. Colocou o vestido de caipira novo, que fez a mãe comprar a prestação, recusando-se a usar o antigo porque nesta ocasião tudo precisava ser encantador para aparecer de braços enlaçados com o primeiro namorado, esse, claro, bem desavisado do seu cargo. Cedeu o rosto para ser pintado e depois em cima da cadeira, de batom , blush e pintas de lápis admirou-se a falsa caipirinha no espelho da alta penteadeira.
Chegando na escola, com muito cuidado para não amassar o vestido, posou para os fotógrafos que sempre deixam as crianças duras e sem jeito naquelas poses de álbum de escola onde quase todos temos um falso sorriso guardado.
Viu de longe a professora que já organizava a fila dos alunos, saiu em disparada, chegando na fila correu os olhos e não encontrou:
- Prof. onde está o Gustavo?
- Ai querida, ele ficou doente, a mãe dele me ligou agorinha, mas fica tranqüila o Jorginho na outra classe disse que dançaria duas vezes.
A notícia veio de espanto, sentiu como se toda as pintas cuidadosamente desenhadas escorregassem do seu rosto. Como poderia essas coisas acontecerem? Olhou para o fim da fila e viu a cara redonda e rosa do Jorginho sorrindo, aquilo a deixou fora de si, caminhou em direção ao menino todo disponível e deu-lhe um pisão no pé.
O menino , abriu um berreiro, a professora chegou correndo a mãe que viu tudo pulou segurando a filha sem entender.
- O que aconteceu?- disse a professora.
- Ela pisou no meu pé!- soluçou Jorginho.
- Foi sem querer!- retrucou a menina enfurecida e mal educada.
- Maria Eduarda, você ficou maluca?- resmungou a mãe apertando –lhe o braço.
- Quero ir embora.
- Ah, mais você vai mesmo mocinha.
- E daí?
- O que aconteceu filho? - veio bufando a mãe de cara tão rosa e redonda quando o filho.
- Foi só um mal entendido, não é Maria Eduarda? - disse a professora pondo panos quentes.
A mãe de Jorginho já com o menino no colo e ouvindo o choramingo baixinho no seu ouvido: “ Ela pisou no meu pé, e com força”. Tento ouvido o lamento do filho, a rosa senhora lançou um olhar fulminante para mãe e filha . A menina encarou, osso duro que era, já a mãe respondeu com um sorriso amarelo o olhar da outra mãe.
Uma saiu com o filho no colo cheia de carinho e a outra arrastava a filha pelo braço. A professora impotente respirou fundo e bateu palmas organizando a fila dou outros caipirinhas.
A mãe de Jorginho afogou-lhe a dor em sorvete e a mãe de Maria Eduarda esquentou-lhe a fúria em um safanão e deixou-a no quarto a sofrer da dor e do coração um dia inteiro sem televisão.

Sheyla Coelho

domingo, 5 de outubro de 2008

À Frida

Cessem com a lenda da conduta
pois foi por esta que entre braços e pernas alheias lhe perdi
foi-se toda honra de minhas coxas
onde já residiram tuas mãos que
hoje julgam insano o tímido cruzar dos meus braços
o não agudo dos meus lábios
e o sim perplexo dos meus olhos.

Duas oitavas acima
soa o inexorável órgão dentro de mim
perdido entre a vontade da alma e o medo do ego.

O medo ataca capa os sentidos
expõe os nossos músculos a movimentos involuntários,
e tudo pela vaga lembrança dos sábados histéricos,
entre as paredes da cidade de ruas vazias onde nunca lhe tive só lhe perdi.

Sheyla Coelho

domingo, 28 de setembro de 2008

O menino e o Rock And Roll

Naquele sábado, a mãe concordou que ele embarcasse no trem Francisco Morato-Barra Funda, pela primeira vez sozinho.
Aflita, deixou o filho na porta da estação
- Cuidado.
- Tá mãe.
Ivan estava indo ao aniversário da prima , em São Paulo, e sua tia o esperaria no destino final.
Entrou na estação com todas as recomendações da mãe girando em sua cabeça: “Não fale com estranhos, cuide do dinheiro da passagem, sua tia vai esperar na
catraca, na catraca viu?”.
Não precisou esperar, o trem já estava lá. Embarcou. Conseguiu um lugar na janela, olhou tudo que podia , o mato, os
Ipês roxos dos quais a mãe sempre comentava a beleza , não queria se esquecer dos detalhes.
Sentiu-se dono de si quando viu o
cadarço do tênis desamarrado, e tendo a oportunidade de escolher amarra-lo ou não, sem a mãe por perto, decidiu não amarra-lo.
Tinha pressa de chegar na festa apesar de estar gostando de ser independente.
Estava com a sua camiseta do “Nirvana”, banda antiga da época de seu pai, ganhou a camiseta dele, que era um grande fã da banda do vocalista loiro.
A viagem de ida foi um pouco demorada perante a ansiedade do garoto, o trem estava vazio e
tranqüilo, já o garoto visivelmente agitado.
Por fim o trem chegou ao destino esperado, a conhecida estação da Barra Funda. Caminhava só e a passos firmes como se fosse dono de tudo.
Lembrava-se do caminho. Lá no fundo já via a Tia de sorriso largo e cabelos descuidadamente pintados de loiro,
animadíssima para enforca-lo em um de seus abraços demorados.
- E aí Ivan , tudo certo, veio
direitinho? - disse agarrando o menino.
- Claro tia. - respondeu Ivan um pouco sem ar.
Entraram no F
usca laranja da tia e seguiram para o animado churrasco. Comeu carne, bolo e disputou os brigadeiros.
Quando viu as primas dançando a musica de um tal
MC, disse repetindo o pai:
- Isso daí é uma porcaria, nem têm letra!
- Ah Ivan você é
EMO!- disse tirando um sarro, a prima maiorzinha, que todas as outras seguiam.
“ Essas meninas não sabem de nada” pensou Ivan e saiu sem responder.
Jogou
video-game com o primo crescido. Decidiu que estava na hora de ir. Queria mesmo era voltar ao trem, a aquela sensação de liberdade que pouco aproveitara na vinda, tamanha vontade de estar na festa. Pediu a tia que o levasse a estação.
Comprou a passagem com o dinheiro que a mãe lhe dera, porém dessa vez não tinha pressa de chegar. Desceu a escadas rolantes em um mesmo degrau, deixando-se levar, parou na plataforma e ficou reparando em como ela era grande ...
Chegado o trem,embarcou. Sentou-se e grudou a cara na janela, sem se preocupar com as estações.
Algumas paradas a frente, entraram dois caras no vagão. Um era loiro cabelo comprido, “tipo
Kurt”, notou Ivan. O outro estava com roupas pretas carregava uma guitarra, Ivan não sabia dizer se era mesmo uma guitarra ou se era um baixo, ficou em dúvida porque o instrumento ia dentro de uma capa daquelas pretas aí ficava difícil de saber.
O rapaz louro levava uma mochila da qual saiam alguns ferros que Ivan identificou como um pedestal de microfone.
“ São de uma banda com certeza” Ivan ficou muito atento,nunca havia ido a um
show, tinha 11 anos e a mãe o achava muito novo para ir nestes lugares.
Desta vez o trem ia cheio e eles sem lugar para sentar ficaram perto da porta ao lado da cadeira de Ivan.
O garoto achou os caras demais, sempre que assistia a
MTV ou conversava com o pai, falava que ia ter uma banda e que iria tocar baixo. Achava os caras que tocavam baixo estilosos, não estéricos e metidos como os guitarristas, apesar das meninas gostarem mais destes.
Ivan percebeu que não era só ele quem olhava para os dois. Duas garotas haviam chego mais perto, uma senhora evangélica os analisava com desdém e muitas outras pessoas olhavam e desviavam, sincronizadamente, para aquela
direção do trem.
“E isso porque eles nem são famosos “- constatou Ivan, sem tirar os olhos do rapaz loiro.
O rapaz de óculos escuros, loiro, com um ar de seguro, realmente mexia mais com o trem que o amigo de roupas pretas e cabelos curtos. Ele dominava a situação encarava as pessoas que o olhavam, percorria com a cabeça o trem todo até que finamente seus olhos cruzaram o de Ivan, que ao contrario da maioria ingenuamente sustentou o olhar.
O cara loiro tirou os óculos escuros mediu Ivan e disse:
- E aí moleque, legal a camisa, você curte Rock
and Roll?
Ivan ficou petrificado, o coração quase
despencou pela boca, eles se entendiam, ele não era “EMO” coisa nenhuma e aquele cara sabia.
- Pode crer, Nirvana, sou fã!- respondeu , orgulhoso e entendido
O cara sorriu para ele, e recolocou os óculos no rosto. Ivan ganhou o dia, realmente especial.
Os dois caras desceram em
Caeras, Ivan anotou mentalmente para um dia poder conhecer aquele lugar. Novamente Ivan sentiu pressa de chegar, contava os segundos, queria relatar ao pai o que aconteceu.
Na estação Francisco
Morato, depois da catraca , estava o pai fumando um cigarro a luz do fim da tarde. Vendo o filho estendeu a mão, Ivan recusou-se a andar de mãos dadas, ignorando-lhe o gesto.
- Pai, fiquei amigo de uns caras que tem uma banda, eles curtem Nirvana. Eu quero começar a tocar baixo pai.
O pai ficou orgulhoso e jurou para si mesmo que iria trabalhar duro para dar um baixo a seu filho.
-
Vamo ver filhão. Agora da a mão aqui pro seu pai, e vamo mostrar pra sua mãe que cê ta vivo, porque ela tá super preocupada lá em casa.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

2 mensagens por E-mail

Nunca pensou em não encontra-lo mais, só não o havia procurado, a tempos não se falavam senão por 2 mensagens que escrevera pelo e-mail, ele respondeu como o amigo de antes. Triste , mas não, não o amava. Não era nele que pensava nas horas de carência, era em outro talvez mais ideal, mais maduro.
Ela sempre achou um mistério nele, conheciam-se a anos ,desde o colégio. Ele confessava-lhe os segredos, as paixões e ela sempre lhe tinha um sorriso, um conselho. Vez ou outra ela sentia algo estranho em seu olhar , além de carinho dos amigos desde de muito, gostava deste mistério de pensar que ele a achava especial.
Meses atrás no carro ele depois de desabafar disse “posso?”,olhando-a nos lábios , ela cedeu ao beijo.
Beijaram-se como duas crianças pequenas, só os lábios se tocaram, os corpos se acanharam levemente para atrás. Pararam, ela tentou dizer alguma coisa para... só saiu um “estranho”, com o qual ele se desesperou, disse “somos amigos”,ela chateou-se, como qualquer uma gostaria de ouvir “uauuu”,mas fez que não e quis provoca-lo. Deitou em seu peito e tornou a beija-lo ele cedeu, ela retrucou “somos amigos” ele não entendeu e alivio-se.Ela bateu a porta do carro sorriu, e entrou em casa.
Entenderam-se, com desculpas , “aconteceu”, “foi bobagem”.Não se percebiam.
Novamente a sós conversaram sobre a vida o futuro e o dinheiro, beberam, e os corpos se quiseram, quase se amaram e ele disse “Não, não dá mais”, ela quis entender, fez que entendeu, calma ela olhou-o por um instante, ele assombrou-se teve medo dela, levantou-se arrumou a roupa e saiu. Ela , sentiu um golpe mudo tomar seu corpo, revirou -se , tentou chama-lo. Dormiu só naquela noite e depois com outros.
E agora entre amigos, 2 mensagens por e-mail.

Sheyla Coelho

sábado, 6 de setembro de 2008

O mais querer

Quero tudo, enquanto acho que sou nada,
quero mais nada quando vejo um pôr do sol,
quero mudar quando descubro novos motivos,
quero viver quando penso na morte,
quero amar quando vejo um céu estrelado,
quero saber quem sou quando falo de mim,
quero mudar quem fui quando escrevo currículos,
quero saber de você quando dou minha mão a ciganas na rua,
quero o querer sem saber de onde ele vem ,
quero os genéricos quando me perco de ti,
quero minha alma de volta quando olho fundo nos seus olhos,
quero, quero, quero
e nada sei eu mais que querer
quero querer quereria
quisesse eu o certo não saberia
quero .
 
Sheyla Coelho