Quero tudo, enquanto acho que sou nada,
quero mais nada quando vejo um pôr do sol,
quero mudar quando descubro novos motivos,
quero viver quando penso na morte,
quero amar quando vejo um céu estrelado,
quero saber quem sou quando falo de mim,
quero mudar quem fui quando escrevo currículos,
quero saber de você quando dou minha mão a ciganas na rua,
quero o querer sem saber de onde ele vem ,
quero os genéricos quando me perco de ti,
quero minha alma de volta quando olho fundo nos seus olhos,
quero, quero, quero
e nada sei eu mais que querer
quero querer quereria
quisesse eu o certo não saberia
quero .
Sheyla Coelho
sábado, 6 de setembro de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Pernas do Centro
Varre, atende, cardápios, trocos.
-Pensa em que ?
-Trabalha para quem?
-Filhos, aliança no dedo.
Escreve, assina, barganha e pensa.
-Trabalha por quê?
-Carro, casa na praia, estacionamento.
Corre, se cansa, anda de pasta plástica.
-Pensa...
-Procura trabalho.
-De que?
- Qualquer, porque sonha.
Sonha, brinca, enche a cara, caminha.
-Deprime, por quê?
- Pensa a mais.
-Trabalha para quem?
-Para si, desculpa-se.
-Quer saber o que todos fazem, por quê?
-Não sabe quem é!
Sheyla Coelho
-Pensa em que ?
-Trabalha para quem?
-Filhos, aliança no dedo.
Escreve, assina, barganha e pensa.
-Trabalha por quê?
-Carro, casa na praia, estacionamento.
Corre, se cansa, anda de pasta plástica.
-Pensa...
-Procura trabalho.
-De que?
- Qualquer, porque sonha.
Sonha, brinca, enche a cara, caminha.
-Deprime, por quê?
- Pensa a mais.
-Trabalha para quem?
-Para si, desculpa-se.
-Quer saber o que todos fazem, por quê?
-Não sabe quem é!
Sheyla Coelho
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Tito
Tito era um rapaz desses que não enxergam o lado ruim da vida, tinha uma complacência inata, invejada nas mesas de bar que frequentava.
– Tito é um grande camarada, quando minha namorada me deixou, disse que não me preocupasse, “a vida é assim, foi-se essa, um dia virá outra, e nada de ser melhor ou pior, só vai ser igual e diferente como os domingos”. Esse Tito é mesmo uma figura, e não pense que é só nesse papo de curar dor-de-cotovelo não, de onde veio esse papo de domingo sai cada uma! - declarou certo dia, no Bar, um amigo de Tito.
Assim era Tito, sempre cheio de conselho, era querido pela amizade, pelas palavras de ajuda, pelo alto astral. Ele não era um rapaz de grande sonhos e pretensões, falava que quem muito imagina pouco olha. Era uma dessas pessoas que faz amizade em ponto de ônibus, e não digo daquelas conversas rápidas que uma vez ou outra a gente tem e só dura até o ponto de descida, se ele estivesse a seu lado, você também o convidaria para uma cerveja logo mais, e se você é do tipo desconfiado, ele já saberia de sua vida conjugal. Uma amiga taróloga que conheceu no vão do Masp analisa:
– Tito é de Peixes, o último dos signos e com ascendente em câncer, o que traz essa vontade de confiar nele, essa coisa família.
Ele passeia bastante, prefere sair só, não porque não tenha amigos, mas diz que quando se sai acompanhado, as chances de conhecer gente nova diminuem.
Em uma tarde, foi ao parque do Ibirapuera andar de bicicleta. Viu próximo ao lago uma garota, ela lhe chamou a atenção, Tito sempre admirava as mulheres, todas, não importava nacionalidade ou idade, mas também, como a tudo, lhes dava uma intensa atenção efêmera.
Com a bicicleta começou dar voltas, porém sem a perder de vista; ela não o notou, estava entretida em um livro grosso, tentou ler o título, mas estava longe. O conhecido Tito do povo se aproximaria, mas aquele Tito daqueles segundos ficara de pernas frouxas, não se reconhecia.
E no seu minuto mais aflitivo até aquele dia, lutando para voltar a ser quem era, um homem sem pretextos, caminhou em um ato legítimo de coragem até a garota que lia.
Em um ato inusitado, o corpo da moça sentiu a sua presença, de súbito levantou a cabeça e disse rápida:
– Você fuma?
– Não - escorreu-lhe da boca, sem nada a complementar.
– Valeu, é que eu queria um isqueiro - disse e enfiou novamente os olhos no livro.
Os pés de Tito o levaram adiante, confuso e sem coragem de olhar para trás. Apiedou-se em seus próprios conselhos: “Se não é essa, será outra”. Porém por mais conforto que esta lição sempre cause, desta vez o nosso Tito experimentou a dor de não poder ter sido essa, e sim uma outra. Pegou a bicicleta que deixara no chão e durante todo esse dia não conversou com ninguém.
Sheyla Coelho
– Tito é um grande camarada, quando minha namorada me deixou, disse que não me preocupasse, “a vida é assim, foi-se essa, um dia virá outra, e nada de ser melhor ou pior, só vai ser igual e diferente como os domingos”. Esse Tito é mesmo uma figura, e não pense que é só nesse papo de curar dor-de-cotovelo não, de onde veio esse papo de domingo sai cada uma! - declarou certo dia, no Bar, um amigo de Tito.
Assim era Tito, sempre cheio de conselho, era querido pela amizade, pelas palavras de ajuda, pelo alto astral. Ele não era um rapaz de grande sonhos e pretensões, falava que quem muito imagina pouco olha. Era uma dessas pessoas que faz amizade em ponto de ônibus, e não digo daquelas conversas rápidas que uma vez ou outra a gente tem e só dura até o ponto de descida, se ele estivesse a seu lado, você também o convidaria para uma cerveja logo mais, e se você é do tipo desconfiado, ele já saberia de sua vida conjugal. Uma amiga taróloga que conheceu no vão do Masp analisa:
– Tito é de Peixes, o último dos signos e com ascendente em câncer, o que traz essa vontade de confiar nele, essa coisa família.
Ele passeia bastante, prefere sair só, não porque não tenha amigos, mas diz que quando se sai acompanhado, as chances de conhecer gente nova diminuem.
Em uma tarde, foi ao parque do Ibirapuera andar de bicicleta. Viu próximo ao lago uma garota, ela lhe chamou a atenção, Tito sempre admirava as mulheres, todas, não importava nacionalidade ou idade, mas também, como a tudo, lhes dava uma intensa atenção efêmera.
Com a bicicleta começou dar voltas, porém sem a perder de vista; ela não o notou, estava entretida em um livro grosso, tentou ler o título, mas estava longe. O conhecido Tito do povo se aproximaria, mas aquele Tito daqueles segundos ficara de pernas frouxas, não se reconhecia.
E no seu minuto mais aflitivo até aquele dia, lutando para voltar a ser quem era, um homem sem pretextos, caminhou em um ato legítimo de coragem até a garota que lia.
Em um ato inusitado, o corpo da moça sentiu a sua presença, de súbito levantou a cabeça e disse rápida:
– Você fuma?
– Não - escorreu-lhe da boca, sem nada a complementar.
– Valeu, é que eu queria um isqueiro - disse e enfiou novamente os olhos no livro.
Os pés de Tito o levaram adiante, confuso e sem coragem de olhar para trás. Apiedou-se em seus próprios conselhos: “Se não é essa, será outra”. Porém por mais conforto que esta lição sempre cause, desta vez o nosso Tito experimentou a dor de não poder ter sido essa, e sim uma outra. Pegou a bicicleta que deixara no chão e durante todo esse dia não conversou com ninguém.
Sheyla Coelho
Ainda Flora e Zanca
– Vem!
– Se eu lhe pedisse para vir comigo, você viria?
– Não! ...Quer dizer, não sei, nunca te vi.
– Então por que pede para que eu vá?
– Ah!... Nossa, desculpe, só pensei alto, nem notei que alguém já havia ocupado o lugar do meu lado.
– É, notei que você estava distante. Qual o seu nome?
– É ...bem, Flora, eu me chamo Flora, e você?
– Eu me chamo Zanca, prazer.
– É, prazer ...Nossa, é meu ponto, eu estava em outra dimensão mesmo...
“Foi assim que conheci Zanca, nome estranho, não era bonito nem feio, mas tive medo dele, desci dois pontos antes do habitual. Sou assim com ônibus, fico pensando nos problemas da vida e entro numa outra dimensão mesmo, mas sempre tenho idéias boas dentro do ônibus, e andando também, parece que quando a gente está nessas situações que a gente não tem muito o que fazer, o imaginário cria com cuidado nossos maiores sonhos e nossos maiores medos se concretizando, só que como é uma simulação a gente sempre age da maneira certa, senão voltamos um pouco a fita e tudo se ajeita.”
Ela é mestre de cerimônias, dona de uma linda voz, de uma existência teimosa e de um talento inato para a prolixidade.
“Sentei-me do lado de uma garota, achei que tivesse fones no ouvido, tinha um olhar tão perdido, se não estivesse certo de que não havia fone, juraria que ela estava escutando uma dessas músicas do Chopin, Beethoven, Mozart, tamanha era a complexidade do seu olhar. Sabe, às vezes a gente saca tipo: olhar apaixonado, triste, de louco, e o dela era inatingível, parecia mergulhada em um imenso vazio, ela era linda. Foi aí que ela falou, e alto “vem!”, quis provocá-la, queria saber o que ela estava pensando, não pude deixar passar.”
Ele é atendente de telemarketing, não gosta do trabalho, mas tem que trabalhar para pagar o curso de teatro.
Ela não se lembra mais da fisionomia dele, porém sempre que está entre amigos conta o fato aqui exposto como o maior mico de sua vida. Ele se lembra de cada gesto, nunca a esquecera, nunca soube explicar o fascínio que aquele ser absorto lhe causara, a reconheceria. Tanto que reconheceu:
– Um café, por favor! Para viagem.
– Flora?
– Quem? Acho você se confundiu.
– Não , Zanca, do ônibus - sorriu (estação Ana Rosa, seis meses atrás).
Ela se lembrou, não dele, mais do nome, do fato, sentiu vergonha quando a amiga chegou.
– Oi, Fernanda. Nossa, chegou cedo.
– É, vim antes para pegar um café.
– Fernanda - sussurra ele ao seu lado.
Ela olha-o, deixa se levar pela amiga, pega o café.
Ele acena com a mão, sente uma profunda tristeza, como se algo dentro dele morresse, não sabe muito bem o que, então morde seu pão na chapa e começa seu dia.
Sheyla Coelho
– Se eu lhe pedisse para vir comigo, você viria?
– Não! ...Quer dizer, não sei, nunca te vi.
– Então por que pede para que eu vá?
– Ah!... Nossa, desculpe, só pensei alto, nem notei que alguém já havia ocupado o lugar do meu lado.
– É, notei que você estava distante. Qual o seu nome?
– É ...bem, Flora, eu me chamo Flora, e você?
– Eu me chamo Zanca, prazer.
– É, prazer ...Nossa, é meu ponto, eu estava em outra dimensão mesmo...
“Foi assim que conheci Zanca, nome estranho, não era bonito nem feio, mas tive medo dele, desci dois pontos antes do habitual. Sou assim com ônibus, fico pensando nos problemas da vida e entro numa outra dimensão mesmo, mas sempre tenho idéias boas dentro do ônibus, e andando também, parece que quando a gente está nessas situações que a gente não tem muito o que fazer, o imaginário cria com cuidado nossos maiores sonhos e nossos maiores medos se concretizando, só que como é uma simulação a gente sempre age da maneira certa, senão voltamos um pouco a fita e tudo se ajeita.”
Ela é mestre de cerimônias, dona de uma linda voz, de uma existência teimosa e de um talento inato para a prolixidade.
“Sentei-me do lado de uma garota, achei que tivesse fones no ouvido, tinha um olhar tão perdido, se não estivesse certo de que não havia fone, juraria que ela estava escutando uma dessas músicas do Chopin, Beethoven, Mozart, tamanha era a complexidade do seu olhar. Sabe, às vezes a gente saca tipo: olhar apaixonado, triste, de louco, e o dela era inatingível, parecia mergulhada em um imenso vazio, ela era linda. Foi aí que ela falou, e alto “vem!”, quis provocá-la, queria saber o que ela estava pensando, não pude deixar passar.”
Ele é atendente de telemarketing, não gosta do trabalho, mas tem que trabalhar para pagar o curso de teatro.
Ela não se lembra mais da fisionomia dele, porém sempre que está entre amigos conta o fato aqui exposto como o maior mico de sua vida. Ele se lembra de cada gesto, nunca a esquecera, nunca soube explicar o fascínio que aquele ser absorto lhe causara, a reconheceria. Tanto que reconheceu:
– Um café, por favor! Para viagem.
– Flora?
– Quem? Acho você se confundiu.
– Não , Zanca, do ônibus - sorriu (estação Ana Rosa, seis meses atrás).
Ela se lembrou, não dele, mais do nome, do fato, sentiu vergonha quando a amiga chegou.
– Oi, Fernanda. Nossa, chegou cedo.
– É, vim antes para pegar um café.
– Fernanda - sussurra ele ao seu lado.
Ela olha-o, deixa se levar pela amiga, pega o café.
Ele acena com a mão, sente uma profunda tristeza, como se algo dentro dele morresse, não sabe muito bem o que, então morde seu pão na chapa e começa seu dia.
Sheyla Coelho
segunda-feira, 28 de julho de 2008
O amor dos desconhecidos
O grande apelo
Das bocas fugidias
Das velhas canções de amor
O samba falsificado
De tuas pernas brancas.
A cadência incompreensível
De olhares desconhecidos
Hoje estão a caminhar
Nas estradas da pele,
Na identidade de teus dedos.
A tristeza fria dos dias de solidão,
Se aquieta no dia do reencontro,
Onde bocas perdidas,
Sufocam respirações, enganam corações.
E ao calar dos instintos
Renova-se a melancolia do adeus,
Que torna cada encontro secreto,
Enquanto bocas anônimas se beijam,
Em quarteirões e quartos escuros
Por onde o amor que ninguém viu
Evapora-se como surgiu
E o cotidiano fixa-se
Na memória vaga
Dos reencontros possíveis perdidos no tempo.
Sheyla Coelho
Das bocas fugidias
Das velhas canções de amor
O samba falsificado
De tuas pernas brancas.
A cadência incompreensível
De olhares desconhecidos
Hoje estão a caminhar
Nas estradas da pele,
Na identidade de teus dedos.
A tristeza fria dos dias de solidão,
Se aquieta no dia do reencontro,
Onde bocas perdidas,
Sufocam respirações, enganam corações.
E ao calar dos instintos
Renova-se a melancolia do adeus,
Que torna cada encontro secreto,
Enquanto bocas anônimas se beijam,
Em quarteirões e quartos escuros
Por onde o amor que ninguém viu
Evapora-se como surgiu
E o cotidiano fixa-se
Na memória vaga
Dos reencontros possíveis perdidos no tempo.
Sheyla Coelho
O Jogo de Taco
Era dia claro, quase sem nuvens. O despertador tocara alto, e Sofia acordara bem, levantou com o famoso pé direito, respirou fundo, sorriu para a cama bagunçada. Era um dia perfeito como todos os outros: tinha uma manhã, teria uma tarde e com certeza a noite viria.
Chacoalhou-se, pulou e correu ao banheiro para que os lençóis não tivessem chance de convencê-la a voltar para a cama.
A água caía, o sabonete em suas mãos limpava, a escova de dentes tirou-lhe o gosto da noite dormida da boca, não comeu - sentira-se um pouco acima do peso na noite passada. Saia posta, blusa escolhida, sapatos calçados, chaves em mãos, tomou o rumo da rua. Na rua conhecida, deu uma bronca na vizinha que lavava a calçada e partiu em direção aos três quarteirões que a levariam ao habitual ponto de ônibus.
Chegando lá, parou, com o pé direito acariciando o chão em semicírculos, perguntou baixinho a si mesma:
– Para onde vou?
Não era louca, porém aos domingos sempre assim procedia. Como em um ritual, entregava-se às ruas, aos novos caminhos, a lugares onde seus sapatos ainda não haviam pisado e decidiu-se:
– Entrarei no segundo ônibus e descerei no décimo sexto ponto.
E assim foi feito. Já entrara naquele ônibus, afinal, tão perto de sua casa não havia muitos. Todavia, nesse ponto, nunca antes descera.
Parou em uma rua perto do centro, sabia mais ou menos onde estava, as ruas não tinham por ali muito movimento a não ser algumas crianças bolivianas que jogavam taco. Surpreendeu-se por as crianças saberem a brincadeira da sua infância, talvez por serem bolivianas, não tinha muita certeza se na Bolívia podia-se jogar taco e também porque sempre via no jornal a saga dos pais para arrancar as crianças de computadores e playstation. Não conhecia nenhuma criança de perto, era filha única e a família que tinha morava no interior. As crianças logo a notaram; sem jeito, começou a procurar algo na bolsa.
A bola correu longe com a tacada do menino de camiseta laranja.
– Tia, pega a bola - falaram os novos brasileirinhos.
Com a agilidade que o impulso lhe deu, parou a bola com o pé esquerdo, após um largo passo para o lado, o coração bateu rápido, e ela pegou a bola em uma das mãos. A menina encarregada da bola parou na sua frente:
– Valeu, tia - estendendo a mão.
Ela sorriu para a chiquita com gosto de travessura, como sorriu tantas vezes na infância do interior, correu sobre o pequeno salto e entrou no jogo.
As crianças se divertiram, a não ser o menino de camisa laranja, que não conseguiu rebater. Ela teve vontade de jogar a partida toda, mas a sua posição de adulta a proibiu, fez um jóia para a chiquita, que riu e rapidamente lhe ensinou um aceno mais moderno para as boas jogadas.
E o dia que nascera perfeito correu em seus passos e pensamentos, revivendo naquele momento um misto de coragem e liberdade que, aos olhos do dia seguinte, seria uma memória que mesmo sendo recente se misturaria com aquelas da infância de cor sépia.
Sheyla Coelho
Chacoalhou-se, pulou e correu ao banheiro para que os lençóis não tivessem chance de convencê-la a voltar para a cama.
A água caía, o sabonete em suas mãos limpava, a escova de dentes tirou-lhe o gosto da noite dormida da boca, não comeu - sentira-se um pouco acima do peso na noite passada. Saia posta, blusa escolhida, sapatos calçados, chaves em mãos, tomou o rumo da rua. Na rua conhecida, deu uma bronca na vizinha que lavava a calçada e partiu em direção aos três quarteirões que a levariam ao habitual ponto de ônibus.
Chegando lá, parou, com o pé direito acariciando o chão em semicírculos, perguntou baixinho a si mesma:
– Para onde vou?
Não era louca, porém aos domingos sempre assim procedia. Como em um ritual, entregava-se às ruas, aos novos caminhos, a lugares onde seus sapatos ainda não haviam pisado e decidiu-se:
– Entrarei no segundo ônibus e descerei no décimo sexto ponto.
E assim foi feito. Já entrara naquele ônibus, afinal, tão perto de sua casa não havia muitos. Todavia, nesse ponto, nunca antes descera.
Parou em uma rua perto do centro, sabia mais ou menos onde estava, as ruas não tinham por ali muito movimento a não ser algumas crianças bolivianas que jogavam taco. Surpreendeu-se por as crianças saberem a brincadeira da sua infância, talvez por serem bolivianas, não tinha muita certeza se na Bolívia podia-se jogar taco e também porque sempre via no jornal a saga dos pais para arrancar as crianças de computadores e playstation. Não conhecia nenhuma criança de perto, era filha única e a família que tinha morava no interior. As crianças logo a notaram; sem jeito, começou a procurar algo na bolsa.
A bola correu longe com a tacada do menino de camiseta laranja.
– Tia, pega a bola - falaram os novos brasileirinhos.
Com a agilidade que o impulso lhe deu, parou a bola com o pé esquerdo, após um largo passo para o lado, o coração bateu rápido, e ela pegou a bola em uma das mãos. A menina encarregada da bola parou na sua frente:
– Valeu, tia - estendendo a mão.
Ela sorriu para a chiquita com gosto de travessura, como sorriu tantas vezes na infância do interior, correu sobre o pequeno salto e entrou no jogo.
As crianças se divertiram, a não ser o menino de camisa laranja, que não conseguiu rebater. Ela teve vontade de jogar a partida toda, mas a sua posição de adulta a proibiu, fez um jóia para a chiquita, que riu e rapidamente lhe ensinou um aceno mais moderno para as boas jogadas.
E o dia que nascera perfeito correu em seus passos e pensamentos, revivendo naquele momento um misto de coragem e liberdade que, aos olhos do dia seguinte, seria uma memória que mesmo sendo recente se misturaria com aquelas da infância de cor sépia.
Sheyla Coelho
A Bela do Cigarro
Fumava cigarros como uma artista de cinema antigo. Gostava de sair só, sentava-se sempre em uma mesa estratégica, onde fosse possível observar, gostava de ver outras pessoas conversando, achava incrível como as pessoas falavam de assuntos tão diversos e tão próximos; sempre havia uma mulher a ser execrada no papo de mulheres, sempre havia a mulher gostosa no papo dos garotões, e sempre, ah!, sempre havia uma suposta outra no papo dos namorados - em menor ou em maior grau, sempre havia algo de extremamente clichê, mas os detalhes eram a riqueza. Pedia uma cerveja e tomava-a lentamente, nunca tinha muito dinheiro, precisava então fazer o consumo demorado, antes pedia café, mas o café acabava rápido, e os gerentes olhavam feio. Às vezes, pensava se havia alguma profissão parecida, achou que seria psicologia, mas logo desistia, precisaria responder às pessoas, dar conselhos, e ela gostava mesmo era de ouvir, saber.
Ia cada dia em um lugar diferente, assustava-a que pudessem taxá-la de bisbilhoteira ou a solitária, porque sempre que se observa, assim, em lugares públicos, corre-se o risco de também ser observada, e ela não saberia como agir sendo ela o alvo da atenção.
Nesse dia, sentou-se em um bar vazio, os dois garçons conversavam, ela sentou-se, pediu a cerveja e, minutos depois, entrou um rapaz que também sentou-se só. Não conseguia classificá-lo, quem seria ele? Homem esperando amigos, homem esperando namorada, não conseguia identificá-lo.
Os olhares dele e dela se cruzaram umas tantas vezes, a cerveja dela já estava pela metade e mais ninguém entrara pela porta.
O interesse dela por aquele rapaz tonara-se trasbordante, não conseguia tirar os olhos dele. Como seria sua voz? No que ele ali pensava? Que profissão teria ele? Não havia uniforme, pasta, ele poderia ser qualquer coisa. Levantou-se, foi ao banheiro para passar o mais próximo possível dele, passou estrategicamente com toda graça que uma mulher possui quando quer algo, foi, voltou, ele até a olhou, mas nada disse, talvez nem tenha olhado para sua bunda como ela acharia normal. Sentiu-se um pouco ridícula quando retornou à mesa, não se achava muito bonita.
Ele então levantou-se, pagou a conta e se foi. Isso aconteceu às 20h38 de uma quinta-feira, horário e dia em que sempre poderemos encontrar a bela do cigarro (como a nomeou em segredo um dos garçons), a sós, naquele bar não muito aconchegante e longe de sua casa, à espera de um próximo encontro.
Sheyla Coelho
Ia cada dia em um lugar diferente, assustava-a que pudessem taxá-la de bisbilhoteira ou a solitária, porque sempre que se observa, assim, em lugares públicos, corre-se o risco de também ser observada, e ela não saberia como agir sendo ela o alvo da atenção.
Nesse dia, sentou-se em um bar vazio, os dois garçons conversavam, ela sentou-se, pediu a cerveja e, minutos depois, entrou um rapaz que também sentou-se só. Não conseguia classificá-lo, quem seria ele? Homem esperando amigos, homem esperando namorada, não conseguia identificá-lo.
Os olhares dele e dela se cruzaram umas tantas vezes, a cerveja dela já estava pela metade e mais ninguém entrara pela porta.
O interesse dela por aquele rapaz tonara-se trasbordante, não conseguia tirar os olhos dele. Como seria sua voz? No que ele ali pensava? Que profissão teria ele? Não havia uniforme, pasta, ele poderia ser qualquer coisa. Levantou-se, foi ao banheiro para passar o mais próximo possível dele, passou estrategicamente com toda graça que uma mulher possui quando quer algo, foi, voltou, ele até a olhou, mas nada disse, talvez nem tenha olhado para sua bunda como ela acharia normal. Sentiu-se um pouco ridícula quando retornou à mesa, não se achava muito bonita.
Ele então levantou-se, pagou a conta e se foi. Isso aconteceu às 20h38 de uma quinta-feira, horário e dia em que sempre poderemos encontrar a bela do cigarro (como a nomeou em segredo um dos garçons), a sós, naquele bar não muito aconchegante e longe de sua casa, à espera de um próximo encontro.
Sheyla Coelho
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